Caderneta de poupança – vale a pena?

Não sei se vocês estão prestando atenção à discussão que está rolando acerca da caderneta de poupança. Há muito debate sobre mexer ou não no rendimento da mesma (algum tempo atrás foi a tributação sobre a mesma, agora é “mexer diretamente sobre os rendimentos”).

Bem, além de falarmos sobre isso, tentando entender se ainda vale a pena a caderneta de poupança como aplicação financeira, vou responder às dúvidas de alguns leitores.

Era uma vez, José e Maria

Bem, para ilustrar um pouco o meu ponto de vista, vou contar uma pequena estória…

Era uma vez José, trabalhador assalariado honesto, casado com dona Maria, também uma batalhadora, e juntos eles construíam sua vida em família. Aos poucos, conseguiam viver de forma razoável (leia-se aqui, esforçando-se para não precisar de bolsa-família, bolsa-escola e outras bolsas).

Um dia, perceberam que se desejassem comprar um aparelho televisor teriam somente duas opções: comprar hoje e pagar juros (algumas/muitas vezes abusivos) ou poupar durante seis ou oito meses e comprar a televisão com um preço mais em conta. Bem, a ideia de adiar um pouco a compra da TV e poupar o suficiente para a mesma lhes parecia interessante, então optaram por fazê-lo.

A caderneta de poupança pode não parecer tão atraente a curto prazo, mas é uma boa forma para proteger seu dinheiro, afinal possui um rendimento mínimo geralmente superior ao da inflação, assim pensaram. Infelizmente, devido a alterações na rentabilização da caderneta de poupança, essa ideia de proteção pode desaparecer.

Talvez o casal da história, José e Maria, descubram ao final do período esperado que ainda não possuem o suficiente, pois a inflação elevou o preço do aparelho mais do que a rentabilização foi capaz de promover. Imaginem, então, nos riscos caso a poupança fosse mantida por esse casal como um fundo de emergência para médio e longo prazo. Sem a segurança oferecida pela caderneta de poupança, seu capital poderia acabar com um poder aquisitivo menor que no início e aí todos perguntar-se-iam: valeu a pena depositar na caderneta de poupança?

Sabem, não gosto de como essa discussão toda está rolando: falam que precisamos acabar com o rendimento fixo da caderneta de poupança, que isso ajudará a reduzir os juros (ou seja, para quem precisa de crédito, facilitando o acesso à população, mas também “engordando o bolso dos bancos”) e que isso não prejudicará os pequenos e médios poupadores… Como?

Bem, se você não sabe por que há tanta gente querendo “mexer na poupança alheia”, vou explicar agora.

O governo quer ganhar sua fatia

Com a caderneta de poupança, não há tributação. Em fundos de investimentos, CDB e compra e venda de ações, há!

Sendo assim, em momentos de juros baixos, como muitos investidores mais conservadores migram para a caderneta de poupança, o governo deixa de arrecadar uma parte.

Os bancos também querem sua fatia

A princípio, você pode pensar que os bancos vão sair perdendo, uma vez que a queda do rendimento da caderneta de poupança levará à queda dos juros. Mas não é bem assim, veja:

  • O dinheiro aplicado em caderneta de poupança não pode ser utilizado pelo banco para empréstimos a terceiros. Se bem me lembro, um mínimo de 85% das arrecadações devem ser aplicadas no financiamento habitacional, cujos juros são bem mais baixos que os juros de um empréstimo pessoal, do cartão de crédito, etc. Entretanto, se os pequenos investidores são “obrigados” a investirem em CDB, o governo ganha sobre a forma de dedução de imposto de renda e os bancos também ganham, afinal de contas esse é o principal capital utilizado pelos mesmos em várias aplicações;
  • Ao reduzir as taxas de juros, mais pessoas buscam crédito para realizar seus sonhos. Sendo assim, apesar do percentual reduzir, os bancos podem conseguir ganhar ainda o mesmo valor absoluto (ou até mesmo um maior) uma vez que mais pessoas demandarão empréstimos, financiamentos, etc.

E onde está a fatia do pequeno e médio investidor?

Pense como um pequeno investidor, que gostaria de ver o seu dinheiro render, porém de forma segura. Você não quer se arriscar no mercado de ações: não tem tempo para estudar o mercado acionário, acompanhar o seu vai-e-vem, etc. Não quer se preocupar se a taxa de juros está subindo ou caindo, para decidir entre um fundo, um CDB ou um título, por exemplo. Qual o caminho mais fácil? Aplicar na caderneta de poupança, não é mesmo? Com ela, você sabe mais ou menos quanto irá ganhar por mês.

Claro, ela não é a opção mais rentável, mas para um investidor conservador, essa é uma boa escolha, principalmente para começar. Bem, agora as coisas podem mudar, pois vão “mexer nessa fatia”.

Dizem que o pequeno e médio investidor também vai lucrar com isso. Não entendi ainda como: se cai o rendimento da poupança, ele precisaria buscar outra alternativa. Entretanto, com a queda dos juros, também o rendimento de outras aplicações irá cair. Ou se contenta com menos, ou vai ter que se arriscar em opções de renda variável!

Será que tem uma fatia para a “população devedora”?

Em um primeiro plano, essa alteração aparenta ser boa para a população em geral, pois os juros mais baixos movimentarão o mercado. O problema é que uma grande facilidade de obtenção de crédito não me parecer ser uma solução muito saudável, principalmente se as pessoas não estão preparadas para isso…

Vejamos bem… 2007 e 2008… Crise econômica nos Estados Unidos decorrente do uso exagerado do crédito, principalmente no setor imobiliário… Será que é um medo irracional pensar que isso pode acontecer aqui, quanto mais incentivamos nossa população a endividar-se, em vez de aprender a investir e produzir bens e serviços, se possível em uma escala global?

Sabe, posso estar enganado, mas tenho a ligeira impressão de que uma sociedade rica é aquela que estimula a produção e consumo, e não aquela que estimula o crédito. Talvez meus conhecimentos em matemática tenham me abandonado, mas para mim essa “conta” não está certa.

Não quero dizer com isso que alterar o rendimento da caderneta de poupança seja algo totalmente horrível. Não, mas acredito que tal proposta deveria ser melhor apresentada à população, apresentando inclusive cenários com várias taxas de juros, quanto a mesma renderia, bem como diversas outras aplicações financeiras.

Bem, para que este não vire um texto tão pessimista, vou agora responder às dúvidas de alguns leitores sobre a caderneta de poupança.

Rendimento e débito no mesmo dia?

Nosso amigo Alex fez a seguinte pergunta: Tenho um débito automático de minha TV por assinatura em minha caderneta de poupança. Devo deixar o rendimento da mesma no mesmo dia do débito?

Alex, se possível, sim, seria melhor até mesmo para você, caso deseje manter um controle financeiro da mesma: bastaria olhar no dia seguinte quanto há lá e já saberia o “saldo final” daquele mês. Entretanto, se assim não estiver, não há problema, desde que a sua caderneta tenha sempre o valor necessário para o débito na data marcada! No caso de conta-corrente, por exemplo, eles oferecem um “cheque especial”, um limite que você pode se utilizar caso não haja dinheiro na conta. Entretanto, é válido lembrar que toda vez que se utilizar de tal terá que pagar juros pelo mesmo. Caso seu banco ofereça alguma facilidade como esta, cuidado, e repito, o mais importante é garantir que o dinheiro estará lá no dia do débito.

Um ou vários aniversários?

Nosso amigo Diogo disse o seguinte: É melhor ter vários aniversários (isto é, depósitos em dias diferentes) ou somente um dia de aniversário?

A resposta é simples: para facilitar os cálculos e saques, ter somente um aniversário é uma melhor escolha, então se você puder ter o hábito de depositar sempre no mesmo dia, ótimo! Entretanto, vamos supor que hoje é dia 20, o aniversário de sua conta é somente no dia 10, você tem algum dinheiro para depositar e sabe que se esperar até tal dia vai acabar gastando aquele dinheiro desnecessariamente, então deposite-o hoje mesmo! É melhor depositar mais dinheiro em dias diferentes do que acabar não depositando ou depositando menos na tentativa de depositar sempre no mesmo dia!

E quatro perguntas para terminar!

Nosso amigo André Luis também possui suas dúvidas, na verdade quatro dúvidas, que são:

  • Se eu abro uma conta no dia 07, a data de aniversário da minha conta será sempre o dia 7 independente de quantos dias tenha o mês?

O rendimento não se baseia no número de dias decorrentes, e sim no dia em que foi realizado o depósito. Sendo assim, se você depositar no dia 07 de fevereiro, não importa se é ano bissexto ou não, o aniversário será sempre no dia 07.

Mas, como sabemos, há certos dias que não existem em todos os meses, como os dias 29, 30 e 31, que podem não aparecer no mês de fevereiro. Segundo Lei 8177 de 01/03/91, artigo 12 parágrafo 3, o rendimento da caderneta de poupança nos dias 29, 30 e 31 deve ser igual ao do primeiro dia do mês seguinte.

  • O juros da poupança rendem sobre o valor total que tenho, ou sobre os novos depósitos?

Entenda a sua caderneta de poupança não como sendo uma única conta, mas como sendo um monte de subcontas. Então se eu faço um depósito no dia 07, é como se eu abrisse uma “conta 07” e a cada dia 07 tudo o que está lá presente será rentabilizado. Perceba que a rentabilização é baseada nos depósitos de cada respectivo aniversário! Então se eu depositar R$ 100,00 no dia 07 e no dia 20 depositar mais R$ 200,00, no próximo dia 07 meus R$ 100,00 irão render (vamos supor que 0,60%, ou seja, tenho agora nessa “subconta” R$ 100,60) e no próximo dia 20 meus R$ 200,00 irão render (supondo mesma taxa, esta outra “subconta” terá R$ 201,20). Assim no próximo dia 07 subsequente ao último rendimento serão os R$ 100,60 que irão render (ficando nessa “subconta” com R$ 101,20).

Enfim, como ainda não chegou ao aniversário da outra subconta, terei até o momento, então, R$ 101,20 + R$ 201,20 = R$ 302,40. Pegou a ideia?

  • Quando deixo de ganhar o juros do mês ?

Você deixa de ganhar os juros de um mês quando efetua um resgate antes de chegar ao dia do aniversário. Vamos supor que você deposite R$ 100,00 no dia 07. Caso você precise do mesmo e o resgate antes de chegar ao próximo dia 07, você não ganhará nada por isso, pois o rendimento só é feito no dia do aniversário da conta.

  • Última pergunta, se eu tiver um valor de R$ 144.000,00 e admitindo um rendimento médio mensal de 720,00 R$. Se todo mês eu resgatar somente o rendimento, sem resgatar parte dos R$ 144.000,00, haverá algum problema nisso? Posso depois de um tempo todo mês resgatar os juros ganhos sem mexer no valor acumulado?

A princípio não há problema algum: o seu capital permanecerá sempre lá, os R$ 144.000,00. Entretanto, há um pequeno problema chamado inflação que poderá atrapalhar um pouco seus planos a longo prazo. Deixe-me mostrar-lhe alguns números (hora de algumas contas no Excel 😀 )…

Considerando-se uma taxa de inflação de 0,49% (bem próxima à que tivemos nos últimos meses), uma aplicação de R$ 144.000,00 e um bem qualquer no valor de R$ 144.000,00 (cujo valor será inflacionado).

Após cinco anos, o valor daquele bem será agora de R$ 193.078,21. Em outras palavras, se no “ano zero” você tivesse o dinheiro para comprar aquele bem (um apartamento, por exemplo) em caderneta de poupança, o mantivesse lá e sempre fosse retirando os juros, deixando somente o valor inicial, após cinco anos precisaria de mais R$ 53.078,21 para poder adquirir o mesmo!

Além disso, aquilo que você conseguiria comprar com os R$ 720,00 reais iniciais, após cinco anos, estaria custando cerca de R$ 965,39, o que pode levá-lo a retirar da poupança mais do que deveria – ou a desenvolver uma nova estratégia, seja consumindo menos, seja buscando outras fontes de renda.

Então, apesar de poder proceder como deseja, é importante fazer um bom planejamento para saber se a inflação não irá atrapalhar em seus planos!

Minha opinião final? Uma “renda extra” é a solução!

Quanto maior é a discussão em torno do rendimento das opções de renda fixa e mais difícil é ganhar dinheiro de forma mais ou menos segura nas opções de renda variável, percebo que melhor pode ser buscar uma opção de “renda extra”.

Já falei isso aqui várias vezes e continuo a incentivar: ter algum negócio online pode ajudá-lo a desafogar um pouco seu orçamento, entretanto isso deve ser pensado e planejado a médio e longo prazo. Fazê-lo pensando que estará ganhando dinheiro em poucos meses pode não ser algo muito sensato.

A caderneta de poupança já foi uma boa opção para quem tem perfil conservador e pode economizar R$ 50,00 ou R$ 100,00 todo mês. Hoje, eu apostaria muito mais em uma estratégia mista, dedicando parte daquele capital ao desenvolvimento de um negócio online e mantendo a outra parte em caderneta de poupança, muito mais com o papel de fundo de emergência do que pensando como um investimento.

Pretendo lançar no final deste ano uma nova empreitada que poderá ajudar muitas pessoas a começarem seu próprio negócio online (estava pensando em lançar isso até a metade do ano, mas infelizmente fiquei muuuuito sem tempo agora que começaram minhas aulas no mestrado) por um custo muito mais acessível do que podemos encontrar por aí. Enfim, eu acredito que se reduzirmos os custos iniciais, incluirmos aqui uma boa capacitação e treinamento e visarmos lucros a médio e longo prazo (no caso, a partir de doze meses completos), então poderemos ter aí algo muito, muito bom para todos!

Bem, por agora fica só na vontade de desenvolver tal projeto e a pergunta no ar: caderneta de poupança – ainda vale a pena?

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One comment

  1. DJS says:

    No aguardo desse projeto. 🙂

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