Educação Financeira e a Economia – Reflexões

Olá a todos e vamos direto ao assunto: educação financeira e crescimento da economia, aparentemente, não combinam! Certo, você deve estar sem entender, afinal de contas todos falam quão interessante é para o crescimento de uma economia a educação financeira da sociedade, mas vou apresentar meus argumentos e, então, convido todos a darem sua opinião aqui (por meio dos comentários).

Decidi tirar algum tempo esta manhã para ler os artigos do Dinheirama.com e outros blogs, e três artigos daquele blog despertaram minha atenção para esse fato: é impressionante que, enquanto consultores financeiros pregam a importância da educação financeira no desenvolvimento saudável da vida das pessoas e famílias, o crescimento acelerado da economia na maioria dos países se apoia justamente na cultura do consumismo – que é contrária à educação financeira!

Se você está interessado nessa discussão, pegue um suco ou refrigerante na geladeira (ou qualquer outra bebida de sua preferência), que nossa conversa será longa, porém proveitosa! E começaremos comparando necessidades e desejos que temos.

Necessidades x Desejos

O que é necessidade? O que é desejo para você? Pode um simples desejo tornar-se necessidade? Pode uma necessidade realmente fundamental tornar-se tão difícil de ser satisfeita que seria considerada um desejo?

Necessidade é tudo aquilo de que realmente precisamos para a manutenção da qualidade de vida. Alimentação, segurança, roupas, transporte para locomoção, etc. Cada um desses itens são essenciais para a nossa vida em sociedade.

Desejo é tudo aquilo que podemos viver sem, mas gostaríamos de ter. Você precisa de alimentos, mas precisa ser um pacote de batatinhas salgadas? Você precisa de segurança, mas é necessária a aquisição de tasers para uso doméstico? E quanto a roupas, você precisa somente se vestir ou obrigatoriamente precisa seguir tendências da moda?

Se você estiver acompanhando nossas discussões em torno de As 5 Etapas do Planejamento Financeiro ou participou de algum outro curso de Educação Financeira já deve saber que seus recursos financeiros devem ser destinados à satisfação das necessidades, porém desejos geralmente podem esperar – e geralmente é onde acabamos por gastar boa parte de nosso dinheiro, então se adiamos a satisfação de tais desejos conseguimos economizar um bom dinheiro.

Entretanto, se você observar países desenvolvidos como os Estados Unidos, perceberá que o crescimento de sua economia se dá justamente na prestação de serviços, geralmente focados na satisfação de desejos. É a famosa “indústria dos sonhos”, crescendo e se expandindo.

E nos últimos anos o que temos visto? Ações de marketing poderosas que tentam transformar desejos em necessidades nas mentes dos consumidores. Afinal de contas, se você acreditar que realmente precisa ter um carro do último modelo lançado este ano, você estará feliz com aquela compra, não é mesmo?

Então, enquanto consultores financeiros tentam nos ensinar a importância de focarmos em nossas necessidades e reduzirmos despesas com desejos, consultores de marketing focam em como “converter” desejos em necessidades em nossas mentes. E não podemos culpá-los: como mencionei antes, é importante para o contínuo crescimento ou manutenção da economia! Mas há momentos em que precisamos repensar tudo isso, por exemplo quanto à associação entre felicidade pessoal e status social que está acontecendo cotidianamente!

Felicidade Pessoal ≠ Status Social!

O que é felicidade para você? Se você perguntar aos seus pais o que deveria significar felicidade para você, eles vão dizer que é ter um bom emprego e uma família unida. Talvez se você perguntar a um político ele lhe dirá que a felicidade está em uma vida harmoniosa em sociedade (esse não é um político brasileiro!). O que significa felicidade muda de acordo com a ótica e objetivos de cada qual.

Para um consultor financeiro, você será feliz se você tiver uma vida financeira equilibrada, se você for capaz de honrar todos os seus compromissos em dia e ainda formar reserva financeira para emergências ou para sua aposentadoria. Já para alguns especialistas em marketing lançando uma nova campanha publicitária, desejam que o seu público-alvo considere felicidade como sendo a obtenção de um determinado “status social”, geralmente mediante uso de um determinado produto ou serviço.

Sim, você deve estar me condenando agora, dizendo que estou exagerando, criminalizando a profissão de marketing. E não estou. Marketing possui um papel bastante claro, de satisfazer as necessidades e desejos de um determinado público-alvo, utilizando-se para isso de diversos veículos de comunicação na propagação de sua mensagem. E esse é um papel realmente digno. Uma boa campanha de marketing, por exemplo, pode ajudar a conscientizar a população quanto à importância da vacinação contra uma determinada doença – e de forma alguma poderíamos julgar este como sendo um mau uso do poder do marketing!

Não sou de ficar criticando campanhas de marketing abertamente (vocês não me viram fazendo isso aqui até então, viram?), mas há uma em especial que me irrita e é aquela que me diz que quando compro seu produto “eu abro a felicidade”.

Coca-Cola: Abra a felicidade… ou não!

A Coca-Cola é sem dúvida uma gigante na indústria de refrigerantes e possui estratégias ótimas de marketing – eu tive alguns daqueles ioiôs da Coca-Cola quando adolescente! – mas eu considero que a estratégia de marketing deva ser condizente com o tipo de produto vendido. E eu não consigo enxergar como beber Coca-Cola me tornará mais feliz por diversas razões:

  • Do ponto de vista financeiro, é o refrigerante mais caro no mercado brasileiro. Se você está tentando recuperar-se financeiramente e possui o hábito de consumir muito refrigerante, trocar um refrigerante Coca-Cola por outro pode representar uma economia de 30%! Então do ponto de vista financeiro, não é felicidade;
  • Do ponto de vista da saúde, pior ainda. Uma simples lata de Coca-Cola possui cerca de três colheres de sopa cheias de açúcar, bem como uma grande concentração de sal. Eu lhe pergunto: você comeria três colheres cheias de açúcar em um almoço ou lanche? Seu corpo reage armazenando todo aquele açúcar – e é por isso que refrigerantes contribuem bastante com o desenvolvimento da obesidade no mundo todo. E se quiser saber o que acontece quando você bebe uma Coca-Cola, leia este artigo. Enfim, também não parece felicidade do ponto de vista da saúde;
  • Do ponto de vista estético… Será que preciso comentar? Nutricionistas sempre recomendam redução ao extremo do consumo de doces, frituras e refrigerantes, pois eles contribuem e muito com o aumento de peso corporal. E pneuzinho não deixa você mais gatinha ou “o cara” mais sarado, não é mesmo? Então aqui também não é felicidade…

Então, de qual tipo de felicidade aquela campanha fala? Eles apontam a promoção da paz, crianças brincando felizes, casais namorando… Espere aí! Em qual dessas coisas o consumo de refrigerante possui uma intervenção direta e real???

E eu sei que a Coca-Cola não é a única companhia a fazer esse tipo de associação entre sua marca e a felicidade – e são todas essas “associações marqueteiras” que estou criticando. Marketing em minha opinião deveria mostrar como um determinado produto ou serviço pode melhorar sua vida, resolvendo um dado problema. Em vez disso, cada vez mais as ações publicitárias estão caminhando para “formas de associar imagem de um produto a uma sensação de bem-estar”, independentemente de haver uma relação real ou não.

O que está acontecendo não somente com a indústria do marketing mas com toda a nossa sociedade, para que tudo seja dessa forma?

E aproveito o momento para comentar a respeito de algo que eu mesmo, como pai, já começo a sofrer na pele: como as ações publicitárias e a cultura do consumismo exacerbado impacta no desenvolvimento de nossas crianças e sua educação financeira.

Educação Financeira Infantil x Cultura do Consumo

Se você ainda não é pai ou seu filho possui menos de três anos, talvez não tenha passado por uma situação como a que vou narrar agora. Meu filho tem hoje cinco anos de idade e um dia desses fui buscá-lo na escola. Na volta, ele começou a me falar que um colega dele levou um iPhone para jogar na escola e me perguntou se eu compraria um iPhone ou tablet para ele.

O que eu fiz? Arregalei os olhos, claro! Até então, meu filho nunca tinha visto ou pedido tais tipos de equipamentos. Eu mesmo não tenho tablet – tenho um notebook, pois trabalho muito digitando, e mesmo assim prefiro usar o computador desktop de minha esposa, pois é bem mais confortável para digitar (e a tela é maior, bem melhor para visualização). Minha esposa também não possui, já perguntei várias vezes se ela deseja ter um, mas ela sempre diz que não, passa pouco tempo fora de casa e também prefere usar o notebook ou o computador.

Entretanto, diante da “novidade” criada ao ver um iPhone e ver como é possível jogar nele, meu filho queria ter um (detalhe, meu filho possui um videogame portátil, mas joga pouco nele). Quanto à ideia do tablet, acho que é fruto de conversas entre ele e os colegas.

E agora, como um pai deve reagir a esse cenário? Comprar um para o seu filho pelo fato de que nunca teve um quando criança (reação padrão)? Eu opto pelo sonoro “não”, seguido de uma boa justificativa, claro. E a minha foi simples: até hoje ele quebra a maior parte de seus brinquedos ainda no primeiro dia de uso (o portátil está inteiro pois coloquei uma correia para pendurar no pescoço e digo para ele jogar sempre sentado na cama ou sofá)! Não sou louco de gastar um bom dinheiro em algo que poderá estar quebrado em questão de horas.

Logo após minha resposta, percebi que aquele era um excelente momento para uma “mini-aula de educação financeira” e então comecei a explicar a ele como os recursos financeiros são limitados e muitas vezes precisamos optar entre uma coisa de duas ou três, por não haver recursos para adquirir tudo. É claro que ele ainda não compreende tudo isso, mas conforme explico mais e mais coisas a ele, vai-se criando a consciência a respeito da moderação no consumo.

Se você estiver acompanhando notícias sobre publicidades e público infantil, já deve saber que algumas empresas foram processadas por suas campanhas publicitárias agressivas focadas no público infantil. Campanhas que tentam convencer a criança de que a felicidade está ali, em uma garrafa de refrigerante, em um pacote de biscoitos, em um brinquedo novo ou em uma sandália com o desenho de seu personagem da TV favorito!

E se as campanhas publicitárias na TV são bastante ativas do lado de lá, do lado de cá temos pais que muitas vezes não estão informados o suficiente ou não sabem como lidar com os pedidos de seus filhos por receio de que eles desenvolvam um “sentimento de rejeição”. Entretanto, papai e mamãe que estão lendo este artigo, vocês são os primeiros e mais importantes responsáveis pela educação financeira de seus filhos! Os hábitos de consumo deles são reflexos dos seus, e são vocês que devem ajudá-los a controlar os impulsos consumistas, sabendo dizer “não” na hora certa bem como justificando por quê.

Considerações finais

Ficou claro o suficiente por que iniciei o texto comentando o “atrito” que há entre educação financeira e o crescimento da economia? A educação financeira prega o bom uso dos recursos financeiros como forma de criar mais liberdade para a pessoa, já a economia necessita que o máximo de recursos financeiros estejam em circulação a fim de que novas empresas possam surgir ou se expandir (o que representa maior contratação de mão-de-obra, dentre outras coisas).

É, é um dilema e tanto. E com certeza não posso oferecer uma “solução universal” assim, com tão pouco estudo sobre o assunto. Mas gostaria de saber a sua opinião a respeito: como podemos conciliar educação financeira e a economia nos dias de hoje?

Nota do autor: nenhuma garrafa de Coca-Cola foi quebrada ou mutilada durante a produção deste artigo!

Share and Enjoy

  • Facebook
  • Twitter
  • Delicious
  • LinkedIn
  • StumbleUpon
  • Add to favorites
  • Email
  • RSS

Quer receber nossos artigos em seu e-mail e "de quebra" baixar nossos e-books "Manual do Investidor" e "Como Ficar Rico - dicas, dúvidas e comentários"?

E-mail:

One comment

  1. anjo says:

    Como assim nenhuma garafa de coca cola foi quebrada? tinha que quebrar tudo. Vamo, vamo, vamo quebrar tudo que isso aqui ta bom demais!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Email
Print